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Um susto chamada páscoa

Não é novidade nenhuma que a páscoa ocorre quarenta dias depois do carnaval. Quando eu era criança, jovem, sem filhos, sem contas, inconsequente, só preocupada com viagem, feriados, fantasias e chocolates, naquela época que a vida era fácil e eu não sabia, parecia que uma data era muito distante da outra. Naquele tempo bom que não volta mais dava pra programar o que fazer, se preparar com calma para o churrasco da sexta feira santa. Depois que eu tive minhas filhas e quanto mais elas crescem descobri que há um fenômeno físico, também conhecido como vida adulta, que faz com que o tempo comprima e esses quarenta dias, viraram um tropeço daqueles que não dá tempo de se equilibrar e a gente sai tastavilhando. Na segunda-feira de carnaval entrei no supermercado e me deparei com coelhinhos de chocolate, gritei apontando para o outro lado em direção às conservas: “Olha ali pepino em promoção! Peguem duas embalagens!” Na esperança que as crianças não vissem o tentador coelhinho, que era um coe...

ET de jardim

  Eu não sei se é uma tendência nacional de decoração de jardim (deve ter uma expressão gringa pra dizer isso), mas aqui no Rio Grande do Sul o povo anda com um gosto, digamos, duvidoso. Não quero dizer com todas as letras que há em voga uma tendência de mau gosto, porque “gosto não se discute já diria uma velha que comia ranho” me ensinou minha mãe que é uma senhora muito distinta e não come ranho (pelo menos não que eu saiba, pelo menos não em público). O fato é que o povo gaúcho bravo e aguerrido deu pra decorar os jardins com ETs. Me pergunto porque cargas d’água alguém faz isso? Considerando o final de 2022, época em que pequena amostra da população dos pagos foi notícia nacional tentando fazer contatos imediatos com celular na testa para que os alienígenas impedissem uma dominação comunista, não é de todo descabida a moda. Na verdade é praticamente uma representação da erudição da região. Há lojas e mais lojas que exibem a estranha estatueta decorativa e consequentemen...

Só depois do Carnaval

  O ano no Brasil só começa depois do Carnaval. Até ontem de manhã era isso que costumávamos dizer. O país para na época da festa mais brasileira de todas, menos a P olícia F ederal como pudemos observar nas últimas 36 horas. O país é composto pelos entusiastas e os inimigos do feriado, porque afinal descobrimos há algum tempo que somos a nação morna dos extremos. Mas sigamos que essa crônica não é sobre política (ou será que é? Ou talvez devesse ser?) Eu t ô no time que gosta da brincadeira, tanto da PF quanto a do carnaval, foquemos na segunda pra tentar não gerar tanta polêmica na véspera do feriado. Reza a lenda familiar que a primeira vez que entrei em um bailinho, fiquei animada e meu primo da mesma idade nos limpava dos confetes, mostrando desde pequenos quem ia gostar mais da folia. Minha mãe e minha avó se dedicavam na confecção da fantasia e na maquiagem. Em um ano fui de coelhinha (era uma versão meio coelha da playboy infantil, mas tudo bem porque era década de 80),...

Articulação idosa

  Vinha eu caminhando pela rua, um pouco desenxabida porque meu fone tinha acabado a bateria. Eu sabia que isso aconteceria mais dia menos dia. E u, uma natural não procrastinadora, procrastinei e não coloquei o negócio para carregar. Fora a pausa obrigatória na minha trilha sonora que dá energia para me mexer, me incomodava o calor, esse calor portoalegrense que pesa, que parece que tá oprimindo a gente e faz o suor escorrer pela coluna até o sulco das nádegas, também conhecido como rego da bunda e eu to orgulhosa de saber o nome técnico pra onde as gotas de suor escoam, porque fui procurar pra tentar não escrever o nome vulgar, mas não resisti e escrevi assim mesmo, já que me sinto mais liberta sendo um pouco escrachada. Então, de repente não mais que de repente uma conversa do outro lado da rua me chamou a atenção fazendo com que eu saísse de dentro da minha cabeça vazia cheia de pensamentos. Um rapaz jovem (dizer rapaz jovem faz de mim alguém tão velh o ) e uma senhorinha arr...

Canalizando energia

  Há uns 10 dias atrás Porto Alegre passou por uma tormenta, tempestade, vendaval, seja lá o que foi aquilo. Da minha janela eu podia ver as árvores dançando lambada e elas eram bem maiores que o Sidney Magal o que fazia a experiência saltar do peculiar para o assustador. Logo ficamos sem luz. Fomos dormir porque já era noite e a chuva seguia fazendo barulho. No outro dia acordei ainda sem energia elétrica. Buscando manter a energia interior me arrumei para a academia e abri a porta da rua. Na pracinha que fica na frente da minha casa muitos galhos caídos, mas nada caótico. Quando cheguei na calçada olhei para um lado e a uns 100 metros tinha meia árvore estatelada no chão. Olhei para o outro lado e a mais ou menos a mesma distância havia uma árvore inteira caída, com raiz e tudo, que tinha levado por diante fios, o poste do relógio de luz de um vizinho, bem como a grade de sua casa. Tive pena do vizinho. Caminhei rumo a academia desviando de árvores e destroços, porque tenho o ...

Hora-bunda

Hora-bunda é um conceito em que alguém compra além da mão de obra de outrem a jornada de geolocalização das nádegas do indivíduo, ainda que as atividades a serem desenvolvidas sejam realizadas pelo cérebro do mesmo, salvo exceções. A prática é mais antiga, mas ela se consolida a partir da revolução industrial. Uma entidade, instituição ou mesmo pessoa física através de um contrato formal ou não de trabalho passa a ter domínio sobre parte das horas diárias onde o trabalhador assenta seu traseiro no período denominado jornada de trabalho. Independente da atividade laboral ser realizada com a bunda, com o cérebro ou com qualquer outro membro. Dessa forma, mesmo que a tarefa tenha sido concluída com êxito, a bunda do trabalhador precisa permanecer no local pré estabelecido pelo empregador até findar a jornada horária estabelecida em contrato. Com o avanço tecnológico e a velocidade de comunicação imposta nos últimos anos, aparentemente esse tipo de domínio sobre as nádegas alheias estava ...

Eu era péssima em Português

  Me inscrevi para fazer um curso e para a matrícula precisava do meu histórico escolar do ensino médio. Obviamente eu não tinha o documento, tive que entrar em contato com o colégio que estudei. Expliquei pra secretária que eu tinha estudado lá na época em que os dinossauros tinham sido extintos e que precisava do tal histórico. A moça simpática, não demorou a me passar o documento. Com ele em mãos tive uma revelação bombástica: as minhas piores notas eram em português. Como assim? Em minha memória afetiva eu era ruim nas exatas, que de fato eu também era ruim, mas constava ali que em português eu conseguia ser pior. Segundo o documento eu era ruim em praticamente tudo, o que me salvava era História, que modéstia à parte eu acho lisonjeiro, e Educação Física. Educação Física? Eu sou reconhecida publicamente por ser quase incapaz de subir escada e mascar chiclete ao mesmo tempo. Lembrei que a professora de Educação Física era mucho loka , só colocava música legal e nos deixava fica...