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Simpatia e algo mais

  Sete horas da manhã é o horário que eu abro o portão da minha casa e me posiciono na calçada junto com a minha filha mais velha para esperar a van e despachar o corpinho amado para o colégio. Ali ficamos uns cinco minutos esperando o veículo e conversando. Nas segundas e quartas quando abrimos o portão aproveitamos para colocar o lixo seco na rua. Há o caminhão oficial da prefeitura que passa mais tarde, mas também tem, desde a madrugada, a coleta extra oficial feita pelos catadores. Às vezes o recolhimento da prefeitura até falha, mas os catadores jamais. Onde moro passam vários, todos muito simpáticos, aliás esse é assunto para outro texto: a simpatia dos lixeiros. Pessoal que vive em uma sociedade super preconceituosa, disfarçadamente organizada em castas, na qual sua profissão está entre as consideradas “de menor prestígio” e que tá sempre sorrindo. Nunca vi lixeiro mau humorado! Enfim, entre os catadores da redondeza tem um casal que sempre me chama a atenção. Ele carreg...

A pontezinha do Sakae's

  Não sei se os amantes do sushi com menos de trinta e cinco anos sabem, mas em uma Porto Alegre remota da década de oitenta, n a época que telefone de discar era sinal de status, carro a álcool no inverno precisava ligar meia hora antes de querer sair e as crianças podiam andar na cachorreira dos automóveis, não tinha um restaurante japonês em cada esquina da pequenópolis . Na verdade tinha um único restaurante japonês que havia inaugurado no meio da década de 70, o Sakae’s comandado pela Sakae, uma japonesa vinda de Nagóia . Era um restaurante que as pessoas cultas, intelectualizadas, mais moderninhas, ou como se dizia na época, prafrentex frequentavam . Muito porto-alegrense conservador torcia o nariz para a s iguaria s orientais recém-chegadas . Meu pai era todo metido a gourmet, por anos escreveu críticas gastronômicas para alguns jornais da cidade sob o pseudônimo de M.E. Sailland, e u m dos seus grande s divertimentos e investimentos era me tornar desde muito ce...

Que mulher era Deise!

  Depois de uma gata de estimação, não mais tão estimada, fazer xixi no modem e me obrigar a mentir para a empresa de internet e TV que o aparelho havia queimado devido a uma descarga elétrica, ainda que o odor de urina entranhado no eletrônico teimasse em me denunciar, contei com a compreensão de um técnico gateiro que fez vista grossa e gentilmente trocou o aparelho sem fazer muitos questionamentos além de perguntar se tínhamos gatinhos. O problema do modem foi resolvido. Na euforia de voltar a estar conectados com o mundo só reparamos dias depois que a nossa TV não era mais a mesma. O aplicativo da Disney não funcionava direito e só quem tem crianças em casa sabe a tragédia do home office sem a companhia das princesas, da Minnie e da Bluey. Liguei novamente para a empresa que presta o serviço, expliquei que desde que o técnico havia trocado o modem o aplicativo não funcionava mais. O moço que me atendeu me tratou como normalmente os atendentes de call center atendem as pes...

Ralo da inutilidade

  A pessoa tá cheia de coisa p a ra fazer, porque quem não tá cheia de coisas pra fazer não tá vivendo nessa dimensão do lado de cá da humanidade, inclusive por favor, entidade superior, nos ensin e como chega nesse lado daí, porque esse de cá tá bastante atribulado . M ilhares de coisas passando na cabeça. R epassando as trocentas coisas que t em pra fazer no dia seguinte . Lembrando dos emails e mensagem não respondido , dos ovos não compr ados , da latinha de milho vazia não enviada para a escola, d o s boletos não pag o s . Fazendo conta de quantas horas faltam pro despertador tocar, afinal é isso que o ansioso faz, tem síndrome do p eru, morre de véspera, sofre pelo que virá. Enquanto tudo isso passa pela cabeça da criatura ela assist e a um vídeo de um bolo lindamente decorado, sendo desdecorado para ser redecorad o . Quase um minuto de vídeo e se faz um a pausa n o engalfinhado de pensamentos dentro da cabeça e em um momento de lucidez único vem o questionament...

Better Things

  - Assite “Better Things” no Star+, tu vai amar! Essa foi a mensagem que recebi já tarde da noite de uma amiga, que me conhece melhor que eu mesma, indicando uma série. Aproveitei o horário, aquele em que eu tenho quase plenos poderes sobre o controle remoto e não sei o que fazer com ele, dei play na dica. A música de abertura dava indícios que uma nova série favorita habitaria meu coração. “Mother” do John Lennon é um convite para algo ganhar minha predileção. Assistindo aos primeiros episódios me encantei com a história de Sam Fox, uma atriz e mãe solo, que cria três filhas, alguns animais de estimação e também ajuda sua mãe que mora na casa em frente a sua. Para além da música de abertura, a trilha sonora como um todo é ótima. Me identifiquei com a relação de Sam e sua filha pré-adolescente, cheia de questionamentos e comportamento desafiador. Compreendi aquela mulher que se apega a fofura, que logo passará, da filha mais moça como elemento energizador para enfrentar o ...

Férias entediantes

  O que mais me fascina nas férias escolares é a mãe e o pai não terem férias escolares. Pelo menos não o tempo todo que dura o recesso escolar. As férias de uns se tornam o caos dos outros. Um caos bom, o pandemônio mais amoroso do universo, mas, ainda assim, uma baderna. Quando eu falo que as coisas viram uma loucura, um lado meu se sente até culpado, porque estamos falando de uma realidade pós pandêmica onde o home office domina muitas vidas e facilita a organização familiar. Antigamente ainda precisávamos pensar com quem deixar as crianças e hoje em uma brincadeira de equilibrismo, pelo menos para parte de nós, vai dando conta do recado. Só que não há lanche que de conta, não há programações domésticas que afastem o tédio de uma geração que está eternamente entediada esperando algo emocionante e surpreendente acontecer. A gente faz o possível para atender a demanda, entre uma tarefa e outra assiste a um capítulo de série, conversa, troca uma ideia, vê uns vídeos desinte...

A sina da mãe moderna

  A sina da mãe moderna é tentar dar conta de tudo. Ela acorda já ligada nos 220 volts, porque sabe o que lhe atravessará assim que abrir os olhos e pronunciar bom dia pra quem quer que seja. Ela é consciente de que não precisa dar conta do universo que carrega nas costas, que pode deixar uma coisa ou outra para trás. A única coisa que ela não consegue ignorar é o julgamento de pessoas que não tem nada a ver com a sua vida, mas que se acham no direito de opinar sobre o que não é seu. Meio da tarde e a mãe moderna que acordou no 220v, já tá estri c nada de cafeína, de pensamentos, de demandas e é nessa hora que ela inicia uma reunião importante de trabalho no celular, porque o capitalismo selvagem não poupa ninguém e ela precisa matar um leão por dia, desviar das antas que aparecem no caminho e ainda por cima levar a pré adolescente da psicóloga para que tenha subsídio para lidar com esse mundo doido e acelerado. Quando está no meio da reunião ela cutuca a pré adolescente, fecha...