Postagens

A Semana Farroupilha

  Nos últimos dias foi celebrado aqui no Rio Grande do Sul a Semana Farroupilha que culmina no dia 20 de setembro. Nesse período são exaltadas as tradições e simbologias do gaúcho. Eu, pessoalmente, celebro no máximo a chance de ter um feriado no meio da semana. Creio que seja difícil de me imaginar vestida de prenda, dançando uma vaneira até porque realmente não acontece. Não combina comigo. Esporadicamente até tomo chimarrão e posso curtir ouvir uma milonga ao longe, mas acabamos as exaltações por aí e isso não ocorre necessariamente na Semana Farroupilha. Esse ano minha filha mais velha tinha um trabalho escolar que consistia em explicar porque o vinte de setembro era comemorado. Tive ímpetos de avacalhar e dizer que se comemora uma guerra perdida motivada por um movimento elitista dos estancieiros que achavam os impostos abusivos, mas me contive. Tem coisas que é mais interessante fazer a pessoa ler, pesquisar e concluir por si mesma. Gosto do desenvolvimento da consciência...

Paralelos Cruzados

  Durante a pandemia toda eu só viajei fisicamente duas vezes. A primeira foi no Natal do ano passado, quando alugamos uma casa na serra para garantir que não cairíamos em tentação de nos aglomerar com ninguém. Passamos uma semana no meio do mato sem ninguém além da nossa bolha asséptica particular. Lá sentada em uma piscina de plástico entre espirros de arminha de água e pequenas baldadas na cabeça disse mentalmente pra mim: Vou escrever um romance. Já me desafiei a escrever uma crônica por semana e estou conseguindo. De que mais sou capaz? Cheguei em casa de volta e me pus a trabalhar. Sou totalmente disciplinada. Criei um esqueleto e comecei a desenvolver. Entre bundas limpas, aulas dadas, home schooling, roupas estendidas, brigas apartadas, mil comidas feitas, depois de um tempo já tinha um manuscrito e um título. Passei para o meu primeiro leitor, que me estranhou porque não estava acostumado com minha faceta mais "seriazinha" , mas ainda assim era eu. Alguns ajus...

Serial Killer de gatos

Na diagonal da minha casa mora um senhor de uns setenta e vários anos. É a pessoa mais só que conheço. Creio que ele nem deva ter sentido o distanciamento social, pois já fazia há anos. Ninguém o visita. Não fala com ninguém. Por anos teve o cabelo pintado de acaju, atualmente está pintado de loiro gema de ovo. É a casa mais limpa e arrumadinha da rua. A falta de convívio social faz com ele tenha tempo de pintar as grades umas seis vezes ao ano, cortar a grama duas vezes por semana, pintar o muro e o piso outras tantas vezes. As janelas estão sempre fechadas, imagino que seja para não entrar poeira da rua. Ele tem um monza da década de 1980 vermelho todo lustradinho que ele não anda, só tira da garagem de vez em quando, liga o motor, desliga e guarda. Já até pensei em oferecer a ele nossa grade para pintar e nosso carro para lavar e lustrar, o estranho vizinho parece bem mais competente e com mais tempo que nós para essas coisas. Toda essa estranheza lhe rendeu fama de vilão da ...

Os brindes plec plec

  Aqui em casa somos todos muito desastrados. Eu, em especial, nos represento com maestria. Sempre fui meio atrapalhada, um tanto desajeitada. Não sei bem o espaço que ocupo, às vezes me hiper dimensiono, outras vezes me hipo dimensiono. Gosto de pensar que sou fluida demais aprisionada dentro de um corpo, isso justificaria minha falta de coordenação motora que me acompanha desde que me mexi pela primeira vez. Sou aquela pessoa que quebra até o que é inquebrável, derrubo o que está muito bem grudado, tropeço no nada ou em mim mesma. Já pensei em me oferecer para ser testadora de resistência de eletrônicos. Invejo quem tem celular há mais de seis meses sem nenhum trincadinho na tela. Sou capaz de vir sorrindo para os convidados com uma travessa de vidro contendo o prato especial do almoço, tropeçar e acabar com o almoço (sim, isso já aconteceu mais de uma vez). Por outro lado, meu marido (que também é um pouco desastrado, mas bem menos que eu) tem, literalmente, uma crise de a...

Dinos da Silvas Sauros

  Devo confessar que na década de 90 eu era grande fã da Família Dinossauro. Cheguei a ter um Baby da Silva Sauro de cabeça de borracha e corpo de vulca-espuma, com uma caixa de voz que dizia os clássicos “Não é mamãe!”, “Você precisa me amar!”. Adorava aquele grupo jurássico perfeitamente humanizado. O chefe da família, Dino da Silva Sauro, era cômico, o típico macho cheio de certezas e pouquíssima reflexão. Era cômico justamente por ser um personagem caricato, fictício. O triste é que na vida real esses espécimes existem, mas perdem completamente a graça, ficando evidente só a boçalidade mesmo. Um episódio que jamais esqueci foi “O dia do arremesso”. Resumidamente neste capítulo a Vovó Zilda, a avó dinossaura personagem que sempre me despertou muito carinho por ser homônima a minha avó, atinge 72 anos. Ao chegar a essa idade os dinossauros do seriado eram tradicionalmente jogados no poço de piche, porque já eram lentos, alguns tinham doenças próprias dessa fase da vida, enfim ...

Antes de iniciar uma série certifique-se que ela tenha início, meio e fim

  Para onde olhamos nos deparamos com o caos, com algo absurdo acontecendo. Claro, que nos meios desses muros distópicos há as pequenas alegrias da vida, se não houvesse sufocaríamos. Dizem por aí desligue da Internet. Até é possível desligar, mas ela não desliga de nós, pelo menos não por muito tempo. As notícias não vem ao nosso encontro, ela vem de encontro a nós. Se atiram na nossa cara e geram uma ansiedade imensa, talvez porque fica cada vez mais claro que toda a vida no planeta está interligada, embora esteja cheio de humanos espalhados por aí incapazes de compreender isso. O desmatamento aqui super aquece lá, o super aquecimento de lá sobe as águas daqui, os direitos das mulheres retirados lá, são faíscas para os direitos que querem nos tirar aqui e assim por diante. Posso até me desligar das informações, mas inevitavelmente em algum momento a "onda" baterá em mim e eu prefiro pelo menos estar ciente que ela está vindo e não ser pega alienadamente de surpresa. ...

Hipocanteirinho

  Essa semana uma amiga me mandou uma reportagem interessante sobre o cérebro pandêmico. Em resumo, a reportagem falava que o stress por períodos curtos pode ser benéfico, como aquela pressão para cumprir um determinado prazo que te joga pra frente e te obriga a responder com rapidez. Contudo, quando somos submetidos a longos períodos de stress, que não tem nem sombra de arrefecer ele deixa de ser benéfico e começa a causar alguns danos ao cérebro (não precisa surtar, são danos reversíveis). Ou seja, não se surpreenda se você estiver com mais dificuldade de concentração, andar mais esquecido ou algo parecido, ao que tudo indica isso também é parte do odioso “novo normal”. Se eu, enquanto leiga, entendi bem, o stress prolongado faz com que liberemos um hormônio chamado cortisol que pode afetar volumes de áreas específicas do cérebro. Uma das áreas afetadas, por exemplo, é o hipocampo que é responsável pela memória. Então, se você anda se identificando com a Dory de “Procurando Ne...