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Panela de Pressão

  Não sei se é coisa de brasileiro, mas por aqui todo mundo tem medo de panela de pressão.Quando a gente é criança sempre ouve de algum adulto “cuidado com a panela de pressão”. Quando começamos a aprender a cozinhar dá uma sensação de c* na mão quando tem que usar a maldita panela. Tem muita gente experiente na cozinha que até hoje não usa porque acha muito perigoso. Todo mundo tem uma história trágica da mãe, do primo, da vizinha que teve queimaduras horríveis de terceiro grau por causa de uma panela que explodiu. Tratamos a panela de pressão como uma bomba caseira e acidental, o que não é totalmente distante da realidade (talvez a parte do acidental, seja). Uma época fiz um curso de gastronomia e descobri que a panela de pressão só explode se a válvula estiver obstruída e gerar tanta, tanta pressão, sem conseguir liberar o ar que tem dentro. Essa descoberta melhorou muito minha relação com esse utensílio. Hoje diria que tenho até certo apreço por ele. Coloco o que for pra...

A vida desaparece em um mergulho

  O dia ensolarado convidava para um passeio. Decidiu caminhar. Colocou a máscara, pegou o celular e saiu. Caminhou até a orla do lago poluído. O contato com a natureza, ainda que estragada pela mão humana, lhe era prazeroso. Não resistiu aos encantos da paisagem. Começou a caminhar por cima das pedras que adentravam a água suja. Buscava o melhor ângulo para uma foto. Dependendo da maneira que fotografasse apareceria só a sujeira. Queria um enquadramento que lhe permitisse hashtags como #paraiso #natureza. O esforço de pular de pedra em pedra parecia valer a pena. Ali já não passava mais ninguém. Não havia barulho, só o bater da água suja, com restos de animais mortos, penas, por vezes, garrafas e latinhas. Pulou para a pedra que parecia perfeita, mas pisou mal e escorregou em uma parte com limo. Não deu tempo de nada. Em um décimo de segundo viu sua vida ser atirada abruptamente para dentro do lago sujo e profundo. Aos poucos sua voz não era mais ouvida, talvez seus últimos...

Ensino Domiciliar

  Quase dezesseis meses de pandemia. Sigo saudável, me contrapondo aos esforços federais. Nos últimos tempos descobri muita coisa sobre a vida. A minha vida. A vida dos outros. Sei mais do que eu queria. Sobre os outros e sobre mim. Talvez o que tenha me causado mais impacto (fora o básico: desgoverno, genocídio, descaso e etcs) tenha sido o homeschooling, ou ensino domiciliar. Nessa caminhada, incerta e nebulosa, com minhas filhas aprendi que gritar e chorar (com a criança ou sozinha no banheiro, já testei as duas opções) não são ferramentas didáticas. Descobri que procrastinar é uma atividade inerente ao ser humano. Nascemos procrastinando e ao longo da vida aprendemos (ou não) a não enrolar para fazer as coisas. Se a pessoa tiver que escrever uma redação, ela não o fará antes de cortar uma borracha em 16 pedacinhos, pintar os dezesseis pedacinhos de várias cores, picotar papel, desenhar toda a mesa de trabalho e só fará a redação sob ameaça de perder o celular. Outra c...

Momento histórico

  O coisinha bem desgastante essa de passar por momento histórico, hein? Momento histórico parece uma matrioska (aquelas bonequinhas russas que têm uma dentro da outra, dentro da outra, dentro da outra....). Viver a era da internet por si só já é um momento histórico. A rapidez e quantidade de informação que recebemos é absurda. Quando que há quarenta anos atrás pensaríamos em experienciar isso? Na década de 80 tínhamos telefones de discar e a linha custava uma fortuna, quem (ser humano comum, prosaico) imaginaria um smartphone? Um pouco antes da pandemia levei minha filha mais velha, então com 8 anos, a um museu e mostrei um telefone daqueles. Contei o que era aquele aparelho, ela olhou pra mim como quem olha para o museu em pessoa e disse abismada: "Sério? Mas como isso funcionava?". Quando que naquela época imaginaríamos não ir ao banco? Alguém imaginava que banca de jornal seria total old school ? Aqui em casa quando tem trabalho de escola das crianças e mandam rec...

Para que os morangos não mofem

  Sexta dessas tive um déjà vu . Aquela sensação de já ter passado por determinada situação. Existe até explicação de porque isso acontece nas nossas cabeças. Li em algum lugar que é como um tique do cérebro, algo como um micro espasmo que sabota a parte responsável pela memória e nos faz familiar com algo ou alguma situação que está ocorrendo naquele momento. Não me acontece com frequência, mas às vezes que acontecem são sempre estranhas. Parece que o cérebro passa a perna na gente e coloca em xeque a noção de realidade e tempo. Nos faz questionar em quantas velocidades e dimensões existimos. Elucubrações à parte, o fato é que eu estava tomando vinho, meu marido procurava algo para ver na tv, minha filha mais velha opinava sobre o programa que seria escolhido, enquanto desenhava e minha filha mais moça me convidou para brincar com ela. A minha missão era pular meio morango de plástico daqueles que tem velcro para colar na outra metade. Antes do salto, com o cálice na mão, me v...

Os avós do Antônio

  Que as mães de crianças e adolescentes são as pessoas mais sobrecarregadas na pandemia todas as mães já sabem. A gente carrega duas toneladas de responsabilidades sobre os ombros e apesar de todas as incertezas precisamos fingir que temos todas as certezas do mundo. Desde que o coronavírus adentrou o país em voo oficial, esqueci o que é relaxar. Eu que já era toda planejadinha, o tempo todo, planejo cada uma das coisas que acontecerão. Ando sempre com um álcool 70% que me passa segurança física e emocional. Nunca pensei que eu me tornaria tão limpinha. É preciso destacar que em quinze meses de pandemia ninguém aqui em casa, entre adultos e crianças, teve sequer um nariz correndo. Sim, eu obrigo os adultos da casa a seguirem meu protocolo de higiene e quem não seguir terá que me aguentar reclamando e dizendo que está colocando todo mundo em risco. Nem ir na pracinha da frente de casa é algo simples. Antes de sair, relembramos que se tem outras crianças não pode dividir o brin...

Sobre corrida, tombos, máscara e bandeiras

  Já comentei em algum momento que eu corro. Não, eu não gosto,mas eu corro. Não é nada contra a corrida, é contra o esporte mesmo. No meu mundo ideal em vez de fazer uma atividade física eu ficaria sentada olhando tv e comendo um donuts. No entanto, a genética não foi legal comigo e se eu fizesse isso estaria participando daquele programa "quilos mortais". Graças a esse DNA que colabora com meu formato arredondado e me faz ter medo de doenças cardiovasculares, não me permito não fazer exercícios e por isso sou a dita “gordinha saudável”. O bom é que como eu não gosto de fazer exercício, eu viajo nos meus próprios pensamentos como forma de fuga daquela atividade chata. Enquanto me exercito faço lista de compras mentalmente, invento atividades para fazer com as minhas filhas durante a pandemia, penso num bolo que talvez um dia eu faça, esboço textos, crio diálogos, tenho ideias mirabolantes. No início da pandemia deixei por um curto período de fazer exercícios o que me rend...