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Para que os morangos não mofem

  Sexta dessas tive um déjà vu . Aquela sensação de já ter passado por determinada situação. Existe até explicação de porque isso acontece nas nossas cabeças. Li em algum lugar que é como um tique do cérebro, algo como um micro espasmo que sabota a parte responsável pela memória e nos faz familiar com algo ou alguma situação que está ocorrendo naquele momento. Não me acontece com frequência, mas às vezes que acontecem são sempre estranhas. Parece que o cérebro passa a perna na gente e coloca em xeque a noção de realidade e tempo. Nos faz questionar em quantas velocidades e dimensões existimos. Elucubrações à parte, o fato é que eu estava tomando vinho, meu marido procurava algo para ver na tv, minha filha mais velha opinava sobre o programa que seria escolhido, enquanto desenhava e minha filha mais moça me convidou para brincar com ela. A minha missão era pular meio morango de plástico daqueles que tem velcro para colar na outra metade. Antes do salto, com o cálice na mão, me v...

Os avós do Antônio

  Que as mães de crianças e adolescentes são as pessoas mais sobrecarregadas na pandemia todas as mães já sabem. A gente carrega duas toneladas de responsabilidades sobre os ombros e apesar de todas as incertezas precisamos fingir que temos todas as certezas do mundo. Desde que o coronavírus adentrou o país em voo oficial, esqueci o que é relaxar. Eu que já era toda planejadinha, o tempo todo, planejo cada uma das coisas que acontecerão. Ando sempre com um álcool 70% que me passa segurança física e emocional. Nunca pensei que eu me tornaria tão limpinha. É preciso destacar que em quinze meses de pandemia ninguém aqui em casa, entre adultos e crianças, teve sequer um nariz correndo. Sim, eu obrigo os adultos da casa a seguirem meu protocolo de higiene e quem não seguir terá que me aguentar reclamando e dizendo que está colocando todo mundo em risco. Nem ir na pracinha da frente de casa é algo simples. Antes de sair, relembramos que se tem outras crianças não pode dividir o brin...

Sobre corrida, tombos, máscara e bandeiras

  Já comentei em algum momento que eu corro. Não, eu não gosto,mas eu corro. Não é nada contra a corrida, é contra o esporte mesmo. No meu mundo ideal em vez de fazer uma atividade física eu ficaria sentada olhando tv e comendo um donuts. No entanto, a genética não foi legal comigo e se eu fizesse isso estaria participando daquele programa "quilos mortais". Graças a esse DNA que colabora com meu formato arredondado e me faz ter medo de doenças cardiovasculares, não me permito não fazer exercícios e por isso sou a dita “gordinha saudável”. O bom é que como eu não gosto de fazer exercício, eu viajo nos meus próprios pensamentos como forma de fuga daquela atividade chata. Enquanto me exercito faço lista de compras mentalmente, invento atividades para fazer com as minhas filhas durante a pandemia, penso num bolo que talvez um dia eu faça, esboço textos, crio diálogos, tenho ideias mirabolantes. No início da pandemia deixei por um curto período de fazer exercícios o que me rend...

A importância da roupa para o trabalho

  Passado mais de um ano que o office invadiu o home fica claro que a indumentária é algo importante no local de trabalho. No caso a casa. O mais interessante é que não só a pessoa que está trabalhando precisa se preocupar com suas roupas. Todos os habitantes da residência precisam estar atentos. Esses dias de manhã bem cedo, eu estava atrapalhada, não tinha tirado o pijama velho e surrado que amo, ajudava minha filha mais velha a se organizar para suas atividades quando ouvi que a minha filha mais moça havia driblado o esquema de segurança, invadido e fechado a porta do escritório onde meu marido começava uma reunião. Cabia a mim resgatar a moça de lá, mas então me dei conta que estava de pijama e roupão. O meu roupão é rosa e me deixa com aspecto de ursão carinhoso velho e sejamos honestos, ele é quentinho, confortável, mas não me favorece. Já o meu pijama não é um pijama qualquer. É discreto, mas em contrapartida é de uma malha velha e surrada. Na bunda parece ter sid...

Rasa como um pires

  Desde 23 de maio de 2016, quando eu acordo tenho um pensamento recorrente, uma esperança. Abro os olhos e vem a minha mente “Tomara que eu tenha ficado tão rasa quanto um pires ou que tudo tenha sido um pesadelo”. Na verdade eu penso “tomara que eu tenha amanhecido burra”, mas não sejamos presunçosa, deixemos o rasa que é mais gentil (com os outros não comigo mesma). Começa o dia. Eu acordo as crianças. Faço café. Nos sentamos na mesa, eu com uma xícara quentinha nas mãos começo a ler as notícias. Pronto! A esperança foi embora, não fiquei mais rasa de um dia para o outro. A vida seria tão mais fácil se eu tivesse a profundidade de um espelho d’água com menos de 1 mm de espessura. Imagina que tranquilo e simples: Ter a certeza que quando dizem “só 0,01% das crianças desenvolvem covid grave”, as minhas crianças não pertencem aos 0,01%. Entender que na pandemia no Brasil está tudo bem ter que optar entre morrer de fome e morrer de covid, como se não houvesse a...

Babá eletrônica

  Antes da pandemia eu era ferrenhamente contra dar um celular para uma criança, mas como tudo o que a gente ferrenhamente julga outras mães, ferrenhamente se volta contra nós mesmos. Veio a pandemia e eu descobri que acabava perdendo meu celular para minha filha mais velha, então com 8 anos. Ela pedia emprestado para jogar, para falar com as amigas e eu cedia, cedia e acabava ficando sem o bendito aparelho. Resultado: cheguei a conclusão que tudo bem ela ter um celular dela. Demos um celular velho com bateria viciada, que assim ela não fica grudada demais, e sem chip para não ter tantos recursos. Passou um mês da pandemia e a vida com as amigas se resumia ao whatsapp, o meu whatsapp. Concluí que um chip também não era tão grave. Providenciamos um chip e desde então ela é uma menina de celular, que fala com as amigas por ali, joga e fica alguns momentos do dia lá no seu mundinho. Sendo honesta em algumas ocasiões, pra mim é ótimo. Tá brigando loucamente com a irmã, vai pro te...

Sinta-se à vontade Dona Morte

  Há algo que venho me perguntando faz um tempo: O que leva as pessoas a se aglomerar durante uma pandemia que tem matado mais de três mil pessoas diariamente somente em nosso país? Sendo que uma das principais recomendações para frear as mortes é justamente não se juntar em grupos. Tenho levantado algumas hipóteses para que essa recomendação não venha sendo seguida. A primeira é que a imensa maioria do povo brasileiro não entende o significado de aglomeração ( essa ideia mantém minha fé nas pessoas). Quando os profissionais da saúde falam em não aglomerar, não se referem a ir a um show com cem mil pessoas. Aliás, se buscarmos o termo no dicionário a primeira coisa que aparece é: ato ou efeito de juntar(-se), misturar(-se), aglomerar(-se); aglomerado. Ou seja, para efeitos pandêmicos aglomera é juntar/misturar pessoas que não tem um convívio obrigatório diário. Minha segunda hipótese é que temos muitos concidadãos com problemas de memória (prefiro não acreditar ou não verbal...