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Seres mágicos que vivem comigo

  Há uns dias tivemos um problema com o motor da piscina. Ele não puxava mais água para o filtro. Onde a água deveria sair, saiam bolhas e mais bolhas. Cogitamos deixar a piscina virar um pântano para vivermos quando todos tivéssemos virado jacaré, mas chegamos a conclusão que a transmutação de toda a família ainda levaria tempo e resolvemos chamar o técnico para dar uma olhada. Tudo que não queríamos era um ser externo à nossa bolha dentro do nosso pátio, mas não tinha solução. O moço veio todo paramentado e nós de longe, bem longe, ficamos observando o que acontecia. Mexe daqui, mexe de lá o problema não era no motor e sim no encanamento. Algo estava obstruindo a passagem da água. Pensamos que deveria ser um brinquedo das crianças. Até imaginei que um hipopótamo de uns 5 centímetros podia ter sido facilmente aspirado durante a limpeza da piscina. O técnico começou a tentar desentupir, mas nada saía. O que quer que fosse estava preso no cano e precisaria abrir o piso. Esse ...

Idade Média 2.0

  Pode parecer estranho, mas tenho desenvolvido empatia com o pessoal que viveu na Idade Média. Obviamente não com os que acendiam a fogueira, tenho uma maior ligação com os que eram queimados ou mesmo assistiram a tudo tentando se manter vivo e com esperança que as coisas melhorariam, quase que espontaneamente. Imagino eles lá na Idade Antiga tudo nu se querendo, papiro pra cá, azeite no corpo pra lá e quando viram: pá! Tava lá a Idade Média toda pudica. Deviam pensar que a coisa ia melhorar e só piorava. O mundo evoluindo, a ciência cheia de descobertas e uns malucos defendendo que a terra era plana, chamando de herege quem pensava diferente(o nosso atual não tem deus no coração), achando que quem morria de apendicite era porque uma entidade superior queria. Certo que durante a peste negra, tinha gente que desviava dos cadáveres e bradava: É vida que segue! A gente tem que dar a vida pelo bem da feira medieval. É só fazer o tratamento precoce com chá de hera-do-não-se-...

O poder do olhar

  É madrugada. Começo a despertar. Uma sensação estranha. Parece que tem alguém me observando. Temerosa abro os olhos e me deparo com um par de olhos redondos fixos em mim.                - ahhhhhhhhputaquepariucaralho! Coração aos saltos. Me recomponho. Já desperta me dou conta que é a minha filha, parada do lado da cama me olhando. Recobro o fôlego e pergunto: - O que tu tá fazendo aqui me olhando? - Te chamei e tu não respondeu. Como assim eu não respondi, não ouvi? Logo eu que ouço tudo (ao menos eu penso assim). - O que houve? - Tive um pesadelo. - Tá bom. Deita aqui comigo. Às vezes me deparo com dois pares de olhos. Um par bem redondinho e outro mais puxado é quando elas vêm em dupla. Sempre me pergunto o que elas faziam antes de pararem para me acordar com o poder do olhar. Será que combinam? Vamos lá ficar olhando até ela acordar assustada. Não dava para me chamar mais alto? Não dava para encostar no meu...

Eco

  Eco é a repetição de um som que se dá pela reflexão de uma onda sonora em uma superfície ou objeto. Quando somos crianças e descobrimos o eco é um fascínio. Gritamos em todos os lugares para ver se acontece ou não. Minha filha mais moça está nessa fase, embora não tenha tido muita oportunidade de testar o efeito sonoro, por motivos óbvios. No máximo experimenta a sensação no banheiro que dá eco. A brincadeira é divertida, mas lá pelas tantas cansa. Ainda mais se o som emitido for sempre o mesmo, a mesma palavra ou a mesma frase. Encarar a pandemia no Brasil tem sido assim, cansativo e repetitivo. Tudo poderia estar melhor com medidas simples (usar máscaras, lavar as mãos e manter o distanciamento social), mas por mais que essas medidas sejam exaustivamente repetidas pelos profissionais de saúde, há mais de um ano, elas ecoam entre as pessoas que já sabem e já fazem o que é necessário. Eles falam, falam, mas parece que suas vozes refletem em redomas mentais recheadas por défici...

Perto do Fogo

  Esses dias eu vinha no carro ouvindo música, quando toca "Perto do Fogo" do Cazuza, mas a versão da Rita Lee e do Roberto de Carvalho no disco Bossa N 'Roll de 1991. Acho que eu não ouvia essa música desde antes da pandemia. Lá pelas tantas Rita declama e questiona como será 2020 e eu, mentalmente, fui respondendo: “ No ano de 2020 como será que vai estar o B rasil?” Ihhhhhhhhhh nem pergunta, chegamos em 2021 e só piora. “ Será que vai ter floresta? Pelo menos uma?” Olha, estão tentando queimar tudo e passar a boiada. “ Será que vai ter um índio, dois? Uma tribozinha? Será que vão sobreviver?” Nossa, Meninaaaaa, quanta clarividência! Há uma tentativa de extermínio. “ Será que a gente aguenta?” Aguentaaa, aliás bem mais do que imaginamos e deveríamos. “ De repente os trombadinhas crescem e viram políticos.” Vamos respeitar os trombadinhas, o caso é bem mais grave! “ Brasil tão bonito né? Grande! País doido esse.....vai ser tudo igual… ” Sim, tudo igual p...

Saudade de carnaval

  Eu não sou a pessoa mais carnavalesca do mundo. Já fui, mas foi uma fase que passou. Atribuo isso a um trabalho que fiz anos atrás em que fui responsável por montar uma escola de samba mirim, o que me ocasionou uma overdose de folia. Desde então meus carnavais são menos no meio da multidão. Ainda frequento bailinhos infantis, porque minhas filhas adoram e é uma maneira de me divertir com as amigas, mães das amigas das minhas filhas, mas não tem mais aquela coisa de ficar bebassa, até porque as chances de perder as crias no bailinho seriam grandes. Dá para tomar uns bons drinques de leve, dançar com as crianças, jogar uns confetes e ver elas todas catando os papeizinhos picados no chão. Esse ano por motivos sanitários não tivemos nada disso. Senti uma falta danada do bailinho do ano passado. Senti uma falta danada da companhia das amigas de bailinho infantil que me ajudavam a não perder minha filha mais moça no meio da multidão, já que ela é um perigo: engata uma primeira e sai...

Rindo de nervosa

  Esses dias vi um vídeo da Mônica Martelli no Instagram do GNT em que ela fazia uma mãe em um carro e no banco de trás tinha uma menininha ansiosa com uma viagem, fazendo milhares de perguntas e falando sem parar. A legenda do vídeo dizia "Quem já pegou estrada com criança sabe o que é rir de nervoso". É verdade! Na hora me lembrei de uma vez que fizemos uma viagem de 500 e poucos quilômetros com a minha filha mais velha e eu pensei: vamos sair super cedo e ela vai dormir o tempo todo. Que nada ela dormiu nos 30 quilômetros finais os outros 470 e tantos ela falou sem parar! Passar por uma pandemia em isolamento social com duas crianças é como pegar a estrada com elas em nível hard. Só rindo de nervoso mesmo! Para começar não se sabe nem quando, nem onde vai chegar. No Brasil não se tem nem ideia de quem está dirigindo o carro (em muitos momentos temos certeza que ele está completamente desgovernado). A ansiedade é geral, das crianças e dos adultos que estão juntos e d...