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Criança vem com sensor de movimento

  Quando eu estava grávida da minha primeira filha uma amiga que pretendia ter o segundo filho me disse: - Não sei como as pessoas fazem o segundo filho. Eu, inocentemente, perguntei: - Por que? É muito caro? Ela me olhou com uma cara de quem me achava uma iludida e respondeu: -Não, porque sempre que a gente tá tendo um momento mais íntimo tem um choro, um “mãnheeeee!”, ou algo do gênero. Achei que era exagero. Pensei que ela e o marido passavam por uma fase meio estranha, afinal quem não passa e ainda por cima estavam culpando aquele anjinho que o filho dela era. Aquela carinha tão linda não devia ser tão intrometida. Aqueles risinhos de bebê, aquela bunda de fralda, aquelas coxinhas. Não, definitivamente, ele não era um enxerido. Tive minha primeira filha e cheguei a conclusão que quando as crianças nascem, instalam nelas um chip com sensor de movimento dos pais. Cada vez que os pais estão a menos de 35 cm de distância um do outro o sensor avisa e elas automaticam...

Política é assunto de criança

     Eu tinha 9 anos, era agosto ou setembro de 1989, nos aproximávamos das eleições presidenciais. Na minha casa não se falava em outra coisa. Todos pareciam ansiosos, animados, mas apreensivos. Me lembro até hoje o voto dos mais próximos. Minha avó e minha dinda votavam no Lula. Minha mãe no Roberto Freire (desculpa mãe, por revelar isso). Meu pai no Mário Covas (não preciso pedir desculpa, porque os dois já morreram).      Era uma atmosfera muito interessante. O meu “voto” oscilava entre esses candidatos, mas incluía o Ulisses porque eu não tinha avô e achava ele com cara de vovô. Minha dinda ligava para falar comigo e me perguntava:      - Pra quem vai teu voto hoje?      E eu respondia, justificava meus argumentos e me sentia a pessoa mais importante do mundo. Me incomodava o fato de não ter uma menina para colocar entre minhas possibilidades do voto (na verdade tinha uma candidata, mas com pouca expressividade...

Deu match!

Tem uma pracinha na frente da minha casa. Depois de muitos meses sem ir lá combinamos que voltaríamos a frequentar aquele espaço com algumas condições. Iríamos em dias de semana porque tem menos gente, em horários sem movimento e que não podia ir no parquinho (ninguém me convence que um balanço de parquinho seja seguro na atualidade, sempre imagino uma criança ranhenta espirrando, limpando com a mão e segurando no balanço). Desde então quando chega no meio da tarde eu fico, à la Janela Indiscreta sem binóculo, cuidando, se não tem gente ou se tem quase ninguém, vamos. As meninas pegam suas bicicletas, colocamos nossas máscaras e praticamente saímos para um safari. Nossa gata, Petit Gateau, costuma nos acompanhar nos passeios. Sai atrás da gente e fica nos espiando entre as árvores. Em uma das primeiras vezes que fomos tinha uma família saindo. Todos sem máscara. O que já me fez mirá-los com maus olhos. A mãe da família olhou para minha filha menor e viu que ela usava uma máscara...

Compras na pandemia

  Sempre gostei de ir ao supermercado, mas desde que começou a pandemia eu parei de ir. Na verdade eu gosto de ir sozinha, com calma e com dinheiro, coisas que há muito não acontecem. Pelo menos não assim, todas juntas. Nem sei se em algum momento isso realmente aconteceu ou é uma memória idealizada de um passado longínquo. O meu novo normal (às vezes acho mais adequado chamar de constante anormal) inclui, entre minhas inúmeras atividades, fazer pedidos para supermercados do bairro onde moro. Nem um deles são grandes redes. São pequenos supermercados, com preços bons e que não cobram pela entrega. Passo minhas listas por whatsapp ou e-mail bem detalhadas com marca, quantidade, o mais preciso possível. Nenhum dos dois estabelecimentos que utilizo tinha esse serviço antes da pandemia o que torna tudo mais interessante. A pessoa que faz as compras para mim lá, não me conhece, não tem a menor noção dos meus hábitos de consumo (a essa altura do campeonato, talvez já tenha) e da m...

A diva e a super-heroína

  Moram comigo duas atrizes mirim. Uma é diva, é dramática, capaz de transformar qualquer coisa em uma novela mexicana. Briga comigo olhando para o espelho para garantir que está se saindo bem. Qualquer coisa pode virar um choro escandaloso e sofrido. Às vezes acho que ela funciona como uma sirene. A outra é mais voltada para a comédia, extrai risadas de todo mundo, muitas vezes só suas caras e bocas são suficientes para nos levar ao riso. Tem dias que ela assume um lado mais maligno e dá risadas típicas de bruxa antes de fazer algo que não devia. Outros dias vira super-heroína e só quer voar. Elas não sabem, mas se complementam lindamente. Ás vezes são meio Tom e Jerry, outras Catatau e Zé Colméia e, sem dúvida, tem seus momentos Pink e Cérebro. Esses dias a super-heroína colocou sua capa e começou a correr pela casa entoando um “ta na tananna tanatannnanamna",que remetia a música do super-homem, com braço erguido. A diva não estava na vibe e nem olhou. Foi chamada pela supe...

O abraço do carboidrato

  Eu tinha 4 ou 5 anos quando meu pai infartou a primeira vez. Primeiro contato mais próximo com a morte, com perder alguém querido. Podia ter sido com um gato, um cachorro, mas não, logo o pai. Me lembro de perguntar para minha mãe se ele ia morrer e ela com toda a honestidade e sutileza, que só quem a conhece sabe que ela é capaz de ter, responder: - Não sei, mas pode ser que sim. A honestidade materna sempre foi uma virtude, sempre me preparou para o pior. Tinha que tomar injeção ou pontos e eu perguntava: -Vai doer? E ela respondia: -Vai. Nesse primeiro infarto do meu pai descobri muitas coisas além da honestidade da minha mãe. Descobri que somos mortais. Descobri que um fumante sem cigarro pode ser alguém muito chato e descobri que não devíamos comer dois amidos ao mesmo tempo. Eu do alto dos meus 5 anos e do recente conhecimento adquirido dizia para quem quisesse ouvir: -Não se come dois amidos na mesma refeição. Não se como arroz com massa, batata com a...

Pandemia que segue

  O coronavírus pegou um Brasil dividido e de forma alguma o unificou, bem pelo contrário. Definitivamente não seremos lembrados pela nação que seu uniu contra o vírus. Aliás, união por aqui atualmente só é conhecida como marca de açúcar e assim mesmo o consumidor opta pela concorrência que é mais barato. O que deveria ser questão sanitária, virou questão política. Quando o assunto é medida de proteção em relação ao vírus temos três grandes blocos com enormes olhos críticos. De um lado estão os coronavírusplanista. Aquele pessoal todo que não acredita no vírus, ou acha que ele é só uma gripezinha. Andam sem máscara, desprezam álcool gel e quase abraçam as pessoas que nem conhecem na rua só para deixar bem clara sua posição. Dizem aos quatro ventos que apesar do suposto vírus a vida segue (estranho falar a vida segue, quando o que parece seguir é a morte). Frequentemente taxam de neuróticos aqueles que não querem convívio físico com quem não faz o distanciamento social. Sentem-...