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Dia Mundial da Poesia

Hoje é o dia mundial da poesia. Já parou pra pensar o que seria do mundo sem poesia? Não teria música, colorido, embalo, movimento. As lágrimas seriam presas, as dores amarradas, os amores contidos e as doenças ampliadas. A tristeza aprisionada, sem poder transbordar pelas palavras de alguém. Para onde iria a graciosidade do mundo? E a indignação com balanço? Confesso que por muito tempo invejei os poetas, a leveza, a sutileza que impacta e tira o ar, a capacidade enxergar o paquiderme na efemeridade da nuvens com o denso contorno da chuva, ora fazendo sol, ora sombra, porque eu sempre fui elefante pisando na casinha da Barbie. Convivi muito com minha avó materna, exímia poeta, leitora voraz. Ela recitava versos de cabeça, os seus, os que lia e até os populares. Dizia que foi treinada desde pequena para isso. Ela participava de oficinas, e eu quietinha de orelha em pé, acompanhava tudo. Tentei escrever poesia, mas nunca gostei do resultado. Me enxergo desajeitada com as palavras e co...

Nós merecemos

  O mundo descobriu as delícias de Fernanda Torres, aquelas que nós já conhecíamos bem e talvez nem nos déssemos conta do que tínhamos em casa. Ver o sucesso internacional dela é que nem ver gringo experimentando paçoquinha, brigadeiro e caipirinha. Ela que estava ali trivialmente tornando a vida mais divertida através da tv de casa, que em um dia difícil arrancava nossas risadas. A mesma que nos fez chorar tantas vezes no cinema nossas dores nacionais e identitárias.   Minhas filhas precisavam entender esse fenômeno em sua totalidade, que não é só saber que uma grande atriz brasileira está arrebatando as atenções mundo afora com uma história importante, mal contada nos relatórios oficiais, mas bem contada na arte que não aceita apagar memórias e pessoas. Por isso eu e as meninas, começamos a maratonar “Entre tapas e beijos”. Todas as noites Fátima e Sueli arrancam nossas risadas. Joelma embala nosso pós janta e as crianças estão contagiadas pelo fenômeno Fernandinha. Depois...

O direito de comprar canudos

     Um dia estava eu comprando decoração para uma festa infantil em uma loja dessas que já foram chamadas de 1,99 e hoje tiveram os juros corrigidos para tudo por 10 reais quando me deparei com canudos, digamos, fálicos. Na verdade eram literalmente canudos de piroca.       Sou muito canguinha, não precisava deles para uma festa infantil, considerando que não sou entusiasta da fake news da mamadeira de piroca, portanto não os adquiri. Mas devo confessar que a possibilidade de comprá-los, assim como quem tem direito a ter um cpf próprio, tem direito ao voto e pode sair do país sem precisar de autorização do marido, em comunhão com o capitalismo e a sociedade do efêmero despertou em mim um desejo de consumo. Tanto que fotografei o acessório de drinks de estética questionável e enviei para todo mundo que o acharia exótico, engraçado (poderia dizer gozado, mas talvez seja infame demais).     Dia 30 de dezembro passado voltei à loja para com...

Grinch vive aqui

Dezembro coloca à prova duas emoções opostas: O amor pela decoração brega de natal e os gatos. Faz uma semana que montei a árvore e eu me sinto dentro da música infantil do Jairzinho: Opa, caiu, levanta! Já perdi a conta de quantas vezes juntei a pobre árvore, constantemente atacada. Não que isso seja uma surpresa. Sou gateira convicta e sempre lidei com essa situação. Já pendurei árvore no teto, já tive pinheiro natural que espeta, por anos tive a árvore da terra plana, aquela de feltro que fica colada na parede. Mas há uns dois anos, por insistência das crianças voltamos a ter pinheiro 3D artificial, o que era um problema, mas não um problema muito grave, afinal nossas gatas estavam velhas, menos dispostas a combater o natal. No entanto, esse ano tivemos renovação na frota felina da casa. Temos um gato de 6 meses que faz da nossa sala um ringue, ELE X PINHEIRO. O rapaz tem tantas ganas de decoração natalina que até o pinheirinho da terra plana que ainda existe na casa, mas com um...

Migraña

Desde que eu me lembro da minha existência convivo com enxaqueca. Minha cabeça dói. Não o tempo todo, não sempre, às vezes mais, às vezes menos, mas com incômoda frequência. Já fiz tratamento contínuo, já desfiz e a vida segue. No último semestre cheguei à conclusão que os problemas nacionais e mundiais já são grandes o suficiente para ter que enfrentá-los de óculos escuros, vomitando e se arrastando pela casa e resolvi voltar a fazer um tratamento sério para isso. Marquei uma hora com uma médica especialista em cefaleia, expliquei para ela meus males e ela me passou uma medicação de uso contínuo, mais uma medicação para crises, me orientou a jamais usar analgésicos comuns, porque dá um efeito rebote que torna a dor pior e por fim me deu uma dieta odiosa mega restritiva, mas como a coisa estava realmente difícil, topei. No meio dessa nova vida que vinha trazendo resultados me surgiu uma viagem de trabalho para Buenos Aires. Organizei minhas coisas, guardei meu remédio de uso contín...

Não fui eu

  O mercado materno é um espaço que ainda precisa evoluir muito, assim como todos os “mercados”. Há uma exigência enorme em relação às mães e cria-se um ambiente extremamente competitivo, cruel. Há quem faça os trabalhos escolares dos filhos para mostrar seus dotes artísticos, deixando evidente que nem Michelangelo no auge dos seus sete anos era capaz de tamanha destreza. Há quem poste fotos de crianças limpinhas vestidas de branco pintando em um espaço todo organizado. Sem contar aquelas que fazem questão de ressaltar a inteligência superior de seu rebento. É difícil achar pares nesse ambiente hostil e a adversidade acaba dando asas a sentimentos controversos. Vou dizer aqui baixinho para ninguém ouvir, mas a maternidade já me fez vibrar com o “fracasso” alheio, apenas por ele não ser meu e ser de outra pobre mãe. Ri da mãe da Ana quando ela mandou a menina fantasiada pro colégio um dia antes do desfile de fantasia. Fiquei com dó da criança, aquela mãe podia ser eu, mas (ufa!) ...

Dona Abstenção dos Brancos Nulos

  Depois do segundo turno das eleições municipais, estive analisando os votos em Porto Alegre e acho que é injusto o atual prefeito, reeleito, assumir o governo por mais quatro anos. Ainda que a disputa tenha sido entre ele e a candidata de oposição que desde o princípio todos sabíamos que não ganharia, pois ela defende justamente o que o “cidadão de bem” mais teme (que ele nem sabe o que é direito) e ainda por cima teimou em nascer mulher, nenhum dos dois obteve a maior parte do apoio popular. A grande vencedora dessa eleição foi a descrença na política. Abstenções, nulos e brancos totalizaram 436.025 votos, quase 30 mil votos a mais que o primeiro colocado, o comandante do Titanic portoalegrense. Levando isso em consideração acho que em 01 de janeiro de 2025 a capital deste estado que já foi protagonista da vanguarda política brasileira, símbolo de resistência, deveria empossar Dona Abstenção dos Brancos Nulos. Pensa na representatividade que essa governante teria? Presta atenç...