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Migraña

Desde que eu me lembro da minha existência convivo com enxaqueca. Minha cabeça dói. Não o tempo todo, não sempre, às vezes mais, às vezes menos, mas com incômoda frequência. Já fiz tratamento contínuo, já desfiz e a vida segue. No último semestre cheguei à conclusão que os problemas nacionais e mundiais já são grandes o suficiente para ter que enfrentá-los de óculos escuros, vomitando e se arrastando pela casa e resolvi voltar a fazer um tratamento sério para isso. Marquei uma hora com uma médica especialista em cefaleia, expliquei para ela meus males e ela me passou uma medicação de uso contínuo, mais uma medicação para crises, me orientou a jamais usar analgésicos comuns, porque dá um efeito rebote que torna a dor pior e por fim me deu uma dieta odiosa mega restritiva, mas como a coisa estava realmente difícil, topei. No meio dessa nova vida que vinha trazendo resultados me surgiu uma viagem de trabalho para Buenos Aires. Organizei minhas coisas, guardei meu remédio de uso contín...

Não fui eu

  O mercado materno é um espaço que ainda precisa evoluir muito, assim como todos os “mercados”. Há uma exigência enorme em relação às mães e cria-se um ambiente extremamente competitivo, cruel. Há quem faça os trabalhos escolares dos filhos para mostrar seus dotes artísticos, deixando evidente que nem Michelangelo no auge dos seus sete anos era capaz de tamanha destreza. Há quem poste fotos de crianças limpinhas vestidas de branco pintando em um espaço todo organizado. Sem contar aquelas que fazem questão de ressaltar a inteligência superior de seu rebento. É difícil achar pares nesse ambiente hostil e a adversidade acaba dando asas a sentimentos controversos. Vou dizer aqui baixinho para ninguém ouvir, mas a maternidade já me fez vibrar com o “fracasso” alheio, apenas por ele não ser meu e ser de outra pobre mãe. Ri da mãe da Ana quando ela mandou a menina fantasiada pro colégio um dia antes do desfile de fantasia. Fiquei com dó da criança, aquela mãe podia ser eu, mas (ufa!) ...

Dona Abstenção dos Brancos Nulos

  Depois do segundo turno das eleições municipais, estive analisando os votos em Porto Alegre e acho que é injusto o atual prefeito, reeleito, assumir o governo por mais quatro anos. Ainda que a disputa tenha sido entre ele e a candidata de oposição que desde o princípio todos sabíamos que não ganharia, pois ela defende justamente o que o “cidadão de bem” mais teme (que ele nem sabe o que é direito) e ainda por cima teimou em nascer mulher, nenhum dos dois obteve a maior parte do apoio popular. A grande vencedora dessa eleição foi a descrença na política. Abstenções, nulos e brancos totalizaram 436.025 votos, quase 30 mil votos a mais que o primeiro colocado, o comandante do Titanic portoalegrense. Levando isso em consideração acho que em 01 de janeiro de 2025 a capital deste estado que já foi protagonista da vanguarda política brasileira, símbolo de resistência, deveria empossar Dona Abstenção dos Brancos Nulos. Pensa na representatividade que essa governante teria? Presta atenç...

A cidade de palha

  Falemos sobre Prático, Heitor e Cícero, sim os três porquinhos. Se bem me lembro quando mamãe porca cansou de sustentar os pequenos suínos abusados, Cícero o mais preguiçoso do trio de leitões, decidiu construir uma casinha de palha, negando os perigos da floresta. Heitor, um pouco mais consciente, mas nem tanto, construiu uma casinha de madeira, enquanto Prático fazendo jus ao seu nome decidiu não ter problemas futuros e construiu uma casinha de tijolos, um empreendimento sólido. Então o lobo mau que vivia na floresta sendo único e exclusivo meliante de toda a redondeza, que sorte tinham os habitantes da mata, viu as edificações novinhas e cobiçou, não as propriedades em si, mas as carninhas tenras que as habitavam. Sorrateiro chegou na casa de Cícero anúncio o crime, deu meio assopro e a mal enjambrada edificação foi pros ares, voou como palha literalmente, o pobre porquinho gritou, gritou, correu, correu e se escondeu na casinha de Heitor, tenho quase certeza que ele não foi...

Calvino esteve na FLIP

Estive na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) pela primeira vez. Mais fiz acontecer do que desfrutei dela propriamente dita, mas é impossível não ser enfeitiçada pela magia literária que lá paira. Não fossem as pedras portuguesas nos colocarem em plena atenção, talvez flutuássemos pelas ruas, ainda que às vezes avistemos um ou outro alçando voos curtos pela cidade e se estabacando de forma dolorida e vexaminosa. Quase admirei a coragem dos ébrios que por ali andavam e não eram poucos. Foram dias quentes, mesmo quando chovia. Foi um mundaréu de gente, um turbilhão de informação, difícil acompanhar e absorver. Em meio a efervescência cultural e histórica, no duplo sentido da palavra, em uma manhã quente, daquelas que o sol já sai chamuscando a pele exposta, me postei em uma fila da padaria cedinho. Sim, porque há uma programação intensa, público e filas imensas. Ali parada sob a quentura em busca de pão e água gelada para completar o download da alma iniciado com um café preto...

Gincana de Gente Grande

  É semana de gincana escolar em um colégio classe média média, ou seja, classe baixa premium, desprovida de consciência. A primeira tarefa das turmas é arrecadar a maior quantidade de tampinhas de garrafa pet possível. O objetivo, ajudar uma instituição de caridade. Lido mal com caridade, curto mais justiça social, mas vamos lá incentivar a criança a arrecadar tampinhas. Percebo através da agitação do grupo de whatsapp de pais que a competição é séria, brincadeira de gente grande. Mães em descontagiante força tarefa para ter a maior quantidade possível dos engasgadores de tartarugas. Olho para nossa meia dúzia de tampinhas, honestamente arrecadada por uma saltitante criança de 7 anos, percebo que vou ter que tomar uma atitude. Por sorte, consigo com uma amiga uma bombona de 5 litros quase 100% recheada de tampinhas. Eu não tinha lido, mas é preciso entregá-las em garrafas de 5 ou 6 litros e só são aceitas as cheias. Chega o dia da entrega, a escola provinciana está em polvorosa,...

Mistura perfeita

Poucas coisas abatem uma mãe, mas ninguém é de ferro e acredito ser unânime no mundo materno, uma das maiores tragédias cotidianas que podem se assolar sobre uma família é a máquina de lavar roupa estragar. Pois bem a minha estragou! Em 7 anos ela nunca tinha feito isso comigo, mas começou a botar água pra fora e não parava. Não teve nem a decência de dar problema em uma segunda-feira pela manhã, foi logo se estrebuchar em uma sexta-feira feriado. O desespero quis tomar conta de mim. Tive vontade de me atirar na montanha de roupa e chorar em posição fetal, mas lembrei do cheiro dos uniformes escolares e preferi manter a compostura. Fui pro google tentar achar alguém que me salvasse, não consegui nada. Então me ocorreu que aquele grupo de pais do whatsapp, que tem majoritariamente mães, serviria para alguma coisa além de dar treta e pedi ajuda: Gente, situação calamitosa! Minha máquina de lavar roupa estragou! Em poucos minutos eu tinha contato de 5 técnicos. Seu Machado foi o prime...